Blog das PME´s

30/07/2013

Por que abrir um negócio é cada vez mais comum entre mães

maes trabalho

Yara Figueiredo, de 40 anos, não voltou ao trabalho numa multinacional em São Paulo depois da licença-maternidade do segundo filho. O problema não era nem descontentamento nem dificuldade para ascender profissionalmente. Yara queria ter controle sobre os próprios horários, para conseguir estar perto de Tiago e Maria Clara, hoje com 9 e 4 anos, respectivamente. “Chorava toda vez que lembrava que os deixava”, afirma. Yara começou a elaborar um plano B entre as trocas de fraldas, como ela diz. Assim nasceu a ideia de abrir uma loja com peças de vestuário e decoração infantis. Quando Maria completou 9 meses, a loja foi inaugurada. Yara faz parte de um grupo de mulheres dispostas a abandonar a carreira e até a estabilidade da carteira assinada, para empreender e estar mais presente no crescimento dos filhos. Nos Estados Unidos, existe um termo específico para se referir a esse grupo: são as mompreneurs – uma junção das palavras mãe e empresária, em inglês.

O termo, cunhado nos EUA na década de 1990, não poderia ser mais atual. Lá, as mulheres empreendem duas vezes mais que os homens e quase metade tem filhos jovens. O Brasil acompanha o mesmo ritmo. A pesquisa As mulheres empreendedoras no Brasil, publicada em março deste ano pelo Sebrae, mostrou que, entre 2001 e 2011, o número de mulheres empreendedoras aumentou 21%, diante de 10% para os homens. Há um total de 7 milhões de empresárias. Dessas, 37% são consideradas chefes de família. No setor de franquias, elas também ampliam sua participação. Em 2010, 45% dos candidatos a abrir uma franquia eram mulheres, de acordo com um estudo da consultoria Rizzo Franchise. Em 2011, já representavam 48% do total. A empresária Paola Tucunduva percebeu essa mudança nas aulas que ministra no Sebrae. Há dez anos, diz, as mulheres eram 20% das turmas de cerca de 30 alunos. Hoje, Paola afirma que elas representam metade das turmas. A procura por empreender cresceu tanto que já existem consultores de carreira especializados em gestantes e novas mães.

A percepção sobre esse grupo de empreendedoras é compartilhada por gestores de carreira e empreendedores. Elas estão na faixa dos 30 anos e são casadas. Têm no mínimo ensino superior completo, pertencem à classe média alta e à classe alta e planejaram cada fase da vida. O filho faz parte desse projeto, e elas querem lidar bem com a maternidade. “Essas mulheres não estão dispostas a ficar longe dos filhos porque o trabalho não permite flexibilidade”, afirma Regina Madalozzo, professora e pesquisadora do Instituto de Ensino e Pesquisa, escola em São Paulo voltada ao ensino e à pesquisa nas áreas de economia e negócios. Em breve, diz Regina, essa necessidade será mais evidente na vida profissional dos homens também.

Encontrar equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal é o desejo que ganhou destaque na enquete com os empregados das melhores empresas para trabalhar publicada com exclusividade por ÉPOCA em 2012. Era a prioridade para 27% dos entrevistados. A pesquisadora Regina diz que esse desejo se torna mais evidente após a chegada dos filhos, quando tanto mães quanto pais precisam lidar com novas situações, como socorrer o filho doente ou pedir ajuda quando a babá falta ou a escola entra em férias. Como abdicar da carreira e vestir o papel de dona de casa não é uma opção para as novas mães, elas partem para abrir o próprio negócio. “Elas não desistiram do mercado de trabalho. Desistiram de trabalhar para outras pessoas”, afirma Regina. A empresária Talita Duarte de Azevedo, de 29 anos, percebeu que o trabalho como contadora no escritório do pai, em horário comercial, era incompatível com o sonho de estar com a filha. Ainda na licença-maternidade, Talita fez cursos de moda. “O nascimento de Mirella foi o empurrão que faltava para mudar de vida”, diz. As primeiras confecções de moda praia e íntima nasceram no escritório que ficava dentro de casa.

Duas novas realidades também permitem que a mulher com um filho pequeno se arrisque a abrir a própria empresa. A primeira diz respeito à maneira como ela se vê. Essa mulher já experimentou a vida dentro de empresas e sabe que tem condições de continuar no mercado de trabalho. A outra, à maneira como se relaciona com o parceiro. Ele apoia a troca e, na maior parte dos casos, dá assessoria financeira. “A mulher se sente segura e tem autoconfiança para realizar a mudança”, afirma Teresa Bonumá, psicoterapeuta familiar. Há 40 anos, Teresa acompanha as mudanças de comportamento das famílias em seu consultório. No último ano, passou a receber mães – e pais – com cargos executivos em multinacionais, dispostos a abdicar dos altos salários para empreender. “O grande desafio da década é a volta à família”, diz.

A vontade de empreender e a ideia de negócio costumam nascer com o filho, em geral durante a licença-maternidade. Como consumidoras de um novo mercado, o infantil, elas acabam descobrindo nichos mal explorados. “Quando você demanda serviços de que antes não precisava, passa a perceber oportunidades de negócio”, diz Ricardo Teixeira, professor da Fundação Getulio Vargas no Rio de Janeiro. A empresária Maria Fernanda Thomé de Rizzo, de 34 anos, descobriu seu lugar no mercado enquanto preparava as papinhas orgânicas da filha Gabriela, agora com 6 anos. Num momento de desespero e incredulidade por chegar do trabalho, ter de cozinhar e não poder curtir a filha, questionou o marido sobre como era possível não existir uma empresa que vendesse comida orgânica para crianças. “Ele saiu da cozinha e voltou minutos depois, com a resposta e um convite”, diz. Numa rápida pesquisa no Google, descobriu que o serviço não existia no Brasil. E perguntou se ela não queria se arriscar no novo ramo. Levaram um ano para abrir a empresa, pioneira no segmento.

Nem Yara, nem Talita, nem Maria Fernanda trabalham menos. Todas acessam e-mails à noite, quando os filhos dormem, e têm de abrir suas lojas nos fins de semana. Como donas de novos negócios, também precisam investir em formação. Maria Fernanda continuou no antigo trabalho, como professora universitária de educação física, e fez um curso de gestão aos sábados, enquanto planejava a empresa. Yara e Talita, com formação em ciências exatas, mergulharam no novo mercado da moda em que investiram. Yara cogitou produzir as peças. Com planejamento, percebeu que seu negócio era vender, e não fazer. Talita frequentou cursos de moda para entender a necessidade das consumidoras. “Você tem de entender seu mercado e verificar se existe uma demanda. Um profissional da área pode ajudar. Não dá para se enganar e acreditar que manterá as portas abertas, vendendo para os amigos”, diz Laecio Barreiros, consultor em gestão empresarial ( http://www.lbarreiros.com.br).

Com planejamento e boa gestão, Yara, Talita e Maria Fernanda realizaram o sonho de conseguir estar mais próximas do dia a dia dos filhos. Yara almoça com as crianças todos os dias. Talita atende as clientes com hora marcada, para cuidar das atividades da bebê. Maria Fernanda acompanha Gabriela nas aulas de natação. As três mães também conseguiram expandir os negócios. Yara ampliou a loja fundada em 2009 e abriu outro ponto de venda. Talita inaugurou, no mês passado, o primeiro ponto de sua marca, que nasceu há quase dois anos. A empresa de Maria Fernanda e duas sócias conta hoje com 18 lojas em sete Estados. Elas esperam que todas as mulheres, como empregadas ou empresárias, consigam o equilíbrio desejado, para ser ao mesmo tempo boas mães e profissionais de sucesso.

 

Elaborei a empresa entre as trocas de fraldas

Yara Figueiredo I 40 anos I mãe de Tiago, 9 anos, e de Maria Clara, 4 anos 

Encarar o olhar da Maria Clara durante a licença-maternidade era um tormento. Sempre chorava. Não podia deixá-la. Quando decidi que retornar ao trabalho não era uma opção, comecei a procurar ideias que permitissem continuar trabalhando sem deixar meus filhos. Fiz o planejamento da loja, o aluguel do ponto de vendas e as primeiras compras para o estoque durante os intervalos de trocas de fraldas. Pensei em produzir algumas peças. Estudei e percebi que meu negócio era vender, não fazer. Maria nasceu em março, e, em novembro, o ponto estava aberto. Na época em que trabalhava para uma empresa, era uma mãe mais culpada. Sentia menos permissão para educar e me exigia algumas coisas, como dar banho e jantar junto. Corria o tempo todo e sentia que ficava em débito. Como empresária, essa sensação se acalmou.

 

Criei uma empresa pioneira no Brasil

Maria Fernanda Thomé de Rizzo I 34 anos I mãe de Gabriela, 6 anos

Toda semana, repetia o mesmo ritual. Saía da universidade em que dava aulas de educação física, comprava alimentos orgânicos no mercado e preparava as 14 papinhas da semana de Gabriela. Um dia, encarei meu marido e disse: ‘Acabei de chegar em casa, estou cansada e tenho de deixar de curtir minha filha para cozinhar. Não tem ninguém neste país que faça comida orgânica para bebê?’. Ele saiu da cozinha e voltou dez minutos depois. Contou que no Brasil não existia, mas, em outros países, sim. E me convidou para fazer. Um ano depois, abrimos a primeira loja. Deixar meu antigo emprego não teve nada a ver com descontentamento. Foi uma fase de minha vida. E a Gabriela iniciou outra. No começo, foi difícil organizar os horários. Agenda flexível não significa mais tempo com os filhos. Desde o início deste ano, pratico corrida e faço lição com a Gabi pela manhã. Trabalho das 9h30 às 17 horas. À noite, consigo jantar com ela e vê-la nas aulas de natação.

 

Meu marido financiou o negócio

Talita Duarte de Azevedo I 29 anos I mãe de Mirella, 1 ano

A gravidez foi o empurrão que precisava para sair do emprego como contadora. Não conseguia imaginar como encaixar as necessidades de um bebê na rotina de um escritório, que funciona em horário comercial. Aproveitei para investir no segmento de moda, que já estudava. Meu marido financiou minha primeira coleção de lingeries. Sem a ajuda dele, não teria conseguido. Incorporei moda praia e roupas de academia à linha. No início, trabalhava na casa dos meus pais. Minha mãe ajudava a cuidar da Mirella, enquanto desenhava os moldes – a produção é terceirizada. À noite, ajustava as peças, depois que a Mirella adormecia. Neste ano, abri um espaço para dar atendimento personalizado às minhas clientes. Ele fica a 3 quilômetros de casa. Há dois meses, Mirella teve uma alergia terrível. Cancelei os compromissos das tardes para cuidar dela e trabalhei no período da manhã. Não imagino como seria se estivesse no antigo emprego.

 

Fonte: Revista Época, por Laecio Barreiros

 

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